(*) Linoel Dias
Há 25 anos, em Nova York, o mundo assistia, atônito, a uma das mais terríveis manifestações da barbárie humana. Na manhã de 11 de setembro de 2001, dezenove terroristas ligados à Al-Qaeda sequestraram quatro aviões comerciais. Dois foram lançados contra as Torres Gêmeas do World Trade Center, outro atingiu o Pentágono e o quarto caiu na Pensilvânia, depois que passageiros e tripulantes tentaram impedir que a aeronave chegasse ao seu destino.
Em poucas horas, milhares de vidas foram ceifadas, famílias foram destruídas e uma ferida foi aberta na consciência da humanidade. Não foram apenas prédios que desabaram. Naquele dia, desabou também parte da sensação de segurança de um mundo que imaginava poder controlar seus próprios destinos.
As imagens daquela manhã permanecem na memória coletiva: as torres em chamas, a fumaça cobrindo o céu, pessoas correndo, procurando desesperadamente notícias de familiares e o silêncio doloroso que se seguiu à tragédia.
Nunca mais o mundo foi exatamente o mesmo.
Mas 25 anos depois, uma pergunta continua sem resposta satisfatória: o que aprendemos com tudo isso?
O terrorismo foi condenado — e deve ser. Nenhuma causa política, religiosa ou ideológica pode justificar o assassinato deliberado de inocentes. A vida humana não pode ser transformada em instrumento de vingança, propaganda ou poder.
Entretanto, a resposta à barbárie também precisa ser submetida à consciência, à justiça e à ética.
Depois do 11 de Setembro veio a chamada “Guerra ao Terror”, com a invasão do Afeganistão e, posteriormente, a guerra do Iraque. Milhares de militares e civis morreram. Famílias foram destruídas, cidades devastadas e gerações cresceram conhecendo a guerra como parte de sua realidade.
A história nos ensina uma verdade incômoda: quando a violência pretende derrotar a violência, muitas vezes apenas muda de mãos.
Não se combate o ódio produzindo mais ódio. Não se constrói justiça alimentando vingança. Não se alcança a paz sem enfrentar as raízes da intolerância, da opressão, do fanatismo, da ambição e da desumanização do outro.
Eis uma das grandes contradições da humanidade: povos fazem guerras dizendo buscar a paz; governos acumulam armas dizendo defender a segurança; grupos praticam violência afirmando lutar por justiça.
Mas que espécie de paz nasce das cinzas?
Que segurança pode existir quando o medo passa a governar as decisões?
Que justiça é essa que precisa abandonar a própria justiça para ser aplicada?
Quando o homem transforma o semelhante em inimigo absoluto, abre-se a porta para todas as formas de crueldade.
Também é preciso reconhecer que o mundo não aprendeu suficientemente a lição do 11 de Setembro. Depois daquele dia, vieram outras guerras, atentados, conflitos, invasões, perseguições e disputas de poder. O século XXI, que poderia ter sido marcado por extraordinários avanços científicos, tecnológicos e humanitários, continua carregando o velho fantasma da guerra.
Enquanto a humanidade envia sondas ao espaço, desenvolve inteligência artificial, manipula partículas, decifra códigos genéticos e amplia extraordinariamente sua capacidade tecnológica, ainda não conseguiu resolver a mais antiga de suas dificuldades: conviver em paz com o seu semelhante.
Temos máquinas cada vez mais inteligentes, mas continuamos cometendo erros burros.
E talvez essa seja a grande pergunta filosófica do nosso tempo:
De que adianta conquistar o mundo se continuamos perdendo a humanidade?
A Palavra nos apresenta uma resposta que permanece extraordinariamente atual. Cristo ensinou: “Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus.” Não disse bem-aventurados os que vencem guerras, os que acumulam poder ou os que impõem sua vontade pela força. Disse: os pacificadores.
A paz bíblica não significa simplesmente ausência de guerra. É muito mais profunda. É reconciliação, justiça, equilíbrio, misericórdia, respeito e amor. É a capacidade de enxergar no outro não um inimigo, mas um ser humano criado pelo mesmo Deus.
Por isso, diante da memória dolorosa do 11 de Setembro, não devemos lembrar apenas dos terroristas, dos aviões e das torres que caíram. Devemos lembrar, principalmente, das vidas humanas que foram interrompidas.
Cada vítima tinha uma história. Tinha família, sonhos, projetos, amizades, responsabilidades e pessoas esperando sua volta para casa.
Números registram mortos. Memórias registram pessoas.
O mundo precisa aprender que vingança pode produzir silêncio, mas somente justiça pode produzir paz.
Precisamos de líderes que compreendam que poder não é licença para destruir; é responsabilidade para proteger. Precisamos de governantes que saibam que a força de uma nação não está apenas no tamanho de seus exércitos ou na quantidade de suas armas, mas também na grandeza de seus princípios.
Precisamos de religiões que ensinem verdadeiramente a amar, e não a odiar em nome de Deus.
Precisamos de cidadãos que compreendam que diferenças políticas, ideológicas, religiosas ou culturais jamais deveriam ser suficientes para retirar do outro a sua humanidade.
E precisamos, sobretudo, recuperar aquilo que parece estar desaparecendo: a consciência de que toda vida humana possui valor.
Vinte e cinco anos depois, a ferida do 11 de Setembro ainda sangra no coração de milhares de famílias. E o mundo continua enfrentando guerras, terrorismo, intolerância e conflitos.
A verdadeira paz começa dentro de nós.
É por isso que as palavras de Cristo continuam atravessando os séculos: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo a dá”.
A paz do mundo pode depender de tratados.
A paz de Deus depende da transformação do coração.
A paz do mundo pode ser temporária.
A paz de Deus pode permanecer mesmo em meio às tempestades.
A paz do mundo pode ser imposta pela força.
A paz de Deus nasce da graça, do perdão e do amor.
O 11 de Setembro não deve ser apenas uma data para recordar uma tragédia. Deve ser uma advertência permanente contra a barbárie, contra o fanatismo e contra a perigosa ilusão de que a violência é capaz de construir um mundo melhor.
Que nunca esqueçamos os que morreram.
Que jamais justifiquemos o terrorismo.
Que não confundamos justiça com vingança.
Que não transformemos o inimigo em desumano.
Que não permitamos que o ódio determine o futuro.
Que a memória do 11 de Setembro não seja apenas lembrança de morte, mas um chamado à vida. Não apenas lembrança de destruição, mas compromisso com a construção. Não apenas memória de uma guerra, mas um apelo à paz.
Que os mortos descansem em paz.
Que os vivos aprendam com a história.
E que a humanidade, enfim, escolha o caminho da paz.
(*) Linoel Dias é jornalista e colunista do “Coisas de Agora”
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