
A sessão plenária do Supremo Tribunal Federal (STF) da terça-feira (15), marcada para decidir sobre possível investigação do ministro Alexandre de Moraes, foi uma ode ao vexame. Na verdade, a Corte foi transformada em tatame político-ideológico, com duas correntes se enfrentando de maneira despudorada e com direito a afrontas.
Cada um à sua maneira, os ministros aproveitaram a fatídica sessão para destilar pílulas de falso moralismo. Tal cenário explica o comportamento dos magistrados, que se debruçaram sobre o dito popular “um olho no peixe e outro no gato”, já que jogaram para a plateia, no caso a opinião pública.
Última a se manifestar, a ministra Cármen Lúcia disse estar envergonhada com a crise no STF e pediu desculpas ao povo brasileiro. “Me sinto envergonhada, no momento em que o Brasil está a vinte dias da eleição, está preocupado com o STF”, afirmou. “Peço também desculpas ao povo brasileiro que deve ter esperado de mim uma postura diferente”, emendou.
Cármen Lúcia avançou com sua fala e criticou o que classificou como “espetacularização”. “Houve uma espetacularização desses casos, desta sessão, que faz mal ao país. País este que espera de nós uma tranquilidade que não conseguimos dar”, afirmou.

A manifestação da ministra Cármen Lúcia chegou com considerável atraso, pois há muito que a mais alta Corte do País vive à sombra de escândalos, sem que seus integrantes tenham reagido com indignação diante do que sempre saltou aos olhos.
Nos últimos 25 anos, para não retroceder demais na linha do tempo, o STF foi palco de escândalos dos mais diversos, com destaque para par perniciosos conflitos de interesse, uma vez que familiares de ministros atuaram através de escritórios de advocacia, na condição de sócios ou associados, na defesa de poderosos cujas ações chegaram à Corte Suprema.
Houve nesse quarto de século habeas corpus para banqueiros corruptos e fraudadores, decisões que beneficiaram políticos influentes, outras que contrariaram flagrantemente a liberdade de imprensa, decisões favoráveis a grandes conglomerados defendidos por parentes de ministros, eventos jurídicos badalados com a participação de magistrados e poderosos com processos em tramitação no STF.
Sem desmerecer a vergonha declarada pela ministra Cármen Lúcia, sua manifestação aconteceu com considerável atraso ou, desconhecemos eventuais motivos, a magistrada adotou nesse período um estanho e obsequioso silêncio.
Não por acaso, Joaquim Barbosa e Luís Roberto Barroso preferiram pendurar a toga antes da hora.



