Venezuela: oposição promete permanecer nas ruas e combater a constituinte do ditador Nicolás Maduro

(M. Bello – Reuters)

Um dia após o anúncio do truculento Nicolás Maduro, da Venezuela, sobre a convocação de uma Assembleia Constituinte, a oposição venezuelana afirmou que combaterá a tentativa de modificar a Constituição e pediu que a população rebele-se contra a iniciativa, considerada uma tentativa de marginalizar o Legislativo.

“Se todos não derem tudo, corremos o risco de que ocorra o que o mundo inteiro está lutando, junto conosco, para evitar, que é o aniquilamento da democracia”, disse nesta terça-feira (2) o líder do Parlamento, o opositor Julio Borges, que classificou a Constituinte como um golpe de Estado e pediu aos venezuelanos que continuem protestando.

No primeiro protesto contra a Constituinte, centenas de venezuelanos em Caracas e em várias cidades do país bloquearam ruas e avenidas. A ação faz parte da estratégia da oposição, reunida na aliança Mesa da Unidade Democrática (MUD), para pressionar o governo através de manifestações populares e evitar, desta maneira, a convocação do processo.

A iniciativa impulsionada pela MUD para fechar as principais vias de circulação do país foi colocada em prática em dezenas de pontos da capital venezuelana e do interior. Durante os bloqueios, os participantes seguravam cartazes pedindo a renúncia do presidente chavista e o acusavam de violar a Constituição, criada há 16 anos por iniciativa de seu antecessor, Hugo Chávez, num processo similar. A oposição convocou ainda um megaprotesto para esta quarta-feira.

Os bloqueios desta terça-feira, que somam-se a mais de um mês de manifestações, ocorreram um dia após o anúncio de Maduro sobre a Constituinte, que, segundo o líder, seria a única solução para a crise. Porém, a oposição acusa o presidente de tentar adiar as eleições deste ano e a presidencial marcada para 2018. Pesquisas indicam que os chavistas seriam derrotados em ambos os pleitos.


Presidente sob pressão

Maduro não divulgou o cronograma para o processo e muito menos esclareceu se a Constituinte se encarregará de redigir uma nova Carta ou será um instrumento de reforma da atual Carta, aprovada por Hugo Chávez há 18 anos, após chegar ao poder, e que deu início à chamada “República Bolivariana”.

A assembleia, limitou-se a dizer o líder venezuelano, será “cidadã, e não de partidos políticos”. Ela seria eleita com o voto direto do povo e teria cerca de 500 integrantes – metade deles escolhidos diretamente por movimentos sociais, como sindicatos e grupos indígenas.

Opositores dizem que o anúncio é outra tentativa de marginalizar o atual Legislativo, liderado pela oposição, e manter o impopular Nicolás Maduro no poder em meio à recessão e a uma onda crescente de protestos.

As manifestações costumam ser duramente reprimidas pela Guarda Nacional Bolivariana, que conta com o apoio violento de milícias ligadas ao Palácio de Miraflores, sede do Executivo venezuelano. Pelo menos 29 pessoas morreram desde o início da ação. O estopim para a onda de protestos foi a decisão do TSJ de assumir as competências da Assembleia Nacional, de maioria opositora.

O golpe institucional foi amplamente condenado internacionalmente, e, sob pressão, a Corte acabou revogando a decisão, o que não foi suficiente para reverter a profunda queda na popularidade de Maduro.

O ditador venezuelano e seus partidários afirmam que a oposição quer derrubá-lo à força como parte de uma conspiração apoiada pelos Estados Unidos para colocar um governo de direita no comando da Venezuela.

Entre outras coisas, opositores pedem eleições, o resgate da autonomia do Legislativo, liberdade para mais de 100 ativistas presos e um canal de ajuda humanitária do exterior para aliviar a crise econômica da Venezuela, onde faltam produtos básicos.

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