Bolsonaro emprestou R$ 40 mil a ex-assessor do filho, mas diz que Queiroz deve cuidar da própria vida

Jair Bolsonaro chegou ao Palácio do Planalto porque vendeu a uma fatia do eleitorado a falsa ideia de ser contra a corrupção, mas não precisou de muito tempo para revelar a própria essência. Talvez porque o presidente da República é fã do dito popular “farinha pouca, meu pirão primeiro”.

Quando a lama da corrupção ameaça o clã que lidera, Bolsonaro age como um dissimulado incorrigível, crente que a opinião pública, exceto os integrantes da seita, é desprovida de massa cinzenta. O carcomido mantra da “velha política”, além de não funcionar, está mostrando quais as verdadeiras intenções do presidente.

Até bem pouco tempo, Jair Bolsonaro era parceiro de pescaria de Fabrício Queiroz, “o faz tudo” da agora família presidencial, mas da noite para o dia o ex-assessor parlamentar Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) tornou-se persona non grata (sic) no Palácio da Alvorada.

Como noticiamos em matéria anterior, Queiroz aparece em gravação, divulgada pelo jornal “O Globo”, tratando com um interlocutor sobre nomeações no Congresso Nacional. O outrora responsável pelas “rachadinhas” no gabinete de Flávio Bolsonaro na Alerj diz que há no Congresso pelo menos 500 cargos que podem ser ocupados por apaniguados, sem que haja vínculo com a família do presidente da República.

“Tem mais de 500 cargos, cara, lá na Câmara e no Senado. Pode indicar para qualquer comissão ou, alguma coisa, sem vincular a eles (clã Bolsonaro) em nada”, diz na gravação. Em seguida, o ex-assessor completa “20 continho aí para gente caía bem pra c…”.

Em outro trecho, Queiroz fala de forma enfática: “O gabinete do Flávio faz fila de deputados e senadores, pessoal para conversar com ele, faz fila. Só chegar lá e nomeia fulano aí para trabalhar contigo aí, salariozinho bom desse aí para a gente que é pai de família, cai como uma uva”.

Por questões óbvias o senador do PSL fluminense negou os fatos, mas o próprio Flávio e o irmão Eduardo, que é deputado federal pelo PSL paulista, nomearam ao menos 116 pessoas na estrutura do Congresso, entre cargos nos respectivos gabinetes e postos ligados ao mandato de ambos (a informação é do jornal “O Estado de S. Paulo”). Considerando que a família Bolsonaro especializou-se em “funcionários fantasmas” – Queiroz que o diga –, todo cuidado é pouco.


Na China, onde cumpre agenda oficial, Bolsonaro foi questionado pelos jornalistas sobre a fala de Queiroz na mencionada gravação, mas, como sempre, se fez de desentendido e fugiu do assunto. Disse o presidente: “O Queiroz cuida da vida dele e eu cuido da minha”.

“Alguém tem que ir atrás dele. Tem um ódio bobo, essa coisa que tem uma fila de cargos. Se conversou com o amigo dele, foi amigo da onça e gravou”, declarou um incomodado Jair Bolsonaro.

Para quem prometeu liderar uma cruzada contra a corrupção e demonizou o ‘toma lá, dá cá”, Bolsonaro está pecando por omissão, talvez por conveniência ou até mesmo “culpa no cartório”.

Há nas falas do presidente da República alguns pontos desconexos. Quando o escândalo das “rachadinhas” veio à tona a reboque de relatório do extinto Coaf, rebatizado como Unidade de Inteligência Financeira, Fabrício Queiroz era próximo da família, a ponto de o presidente ter emprestado R$ 40 mil ao ex-assessor do seu filho.

A questão envolvendo o tal empréstimo só veio à luz porque Fabrício Queiroz depositou R$ 24 mil na conta da primeira-dama Michelle Bolsonaro. Sem ter como explicar a transação, o presidente preferiu “tirar da cartola” uma explicação nada convincente.

Pois bem, se o empréstimo realmente aconteceu, Bolsonaro deveria informar a origem do dinheiro e explicar por qual razão não declarou o “favor” à Receita Federal. O assunto caiu na fresta do esquecimento, sem que ninguém fosse cobrado a dar detalhes dessa “ação entre amigos”.

Resumindo, o telhado de Jair Bolsonaro também é de vidro, mas por enquanto tem uma fina e esgarçada lona que o recobre. Isso até a primeira ventana mais consistente. Não custa lembrar que Fernando Collor de Mello caiu por um conjunto de motivos, entre os quais esses malabarismos políticos. A conferir!