Decisão sobre o impasse entre Dória e o PSDB fica para a próxima semana; “terceira via” terá de esperar

 
Ex-governador de São Paulo, João Dória Júnior lidera a comissão de frente encarregada de preparar a sepultura onde serão depositados os restos mortais do PSDB, partido que estranha e inexplicavelmente abandonou a socialdemocracia pata lamber as franjas da direita tupiniquim. Não foi por falta de aviso, pois nos dedicamos a alertar para esse perigo, mas tudo aconteceu com a aquiescência do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, espécie de “rainha-mãe” do tucanato.

Que a candidatura de Dória à Presidência da República não decolaria todos sabiam, exceto os que acreditam em milagres sem a intervenção do milagreiro. Com elevados índices de rejeição, o ex-governador paulista tenta fazer no universo político o que sempre fez na iniciativa privada: dar ordens, ter as vontades respeitadas e atropelar oponentes. A política, como se sabe, é a arte do possível, ao passo que Dória se pauta pelo impossível. Essa combinação é tão ineficaz quanto explosiva.

Em seu último bastião, São Paulo, o PSDB está minguando, mas caciques da legenda tentam salvar o que resta do ninho tucano, mas essa é uma operação de risco e de resultado incerto. O desmonte do partido não começou agora, mas em 2005, por ocasião da CPMI dos Correios, quando a chapa que elegeu Lula poderia ser cassada por uso de recursos depositados no exterior para o custeio da campanha eleitoral do petista.

À época, tucanos que integravam a CPMI decidiram não insistir no escândalo, que tinha o marqueteiro Duda Mendonça na proa, sob o argumento de que era preciso garantir a governabilidade. Teoria esdrúxula de um amontoado de “punhos de renda”. Naquele momento, a cúpula do PSDB, que andava sobre saltos altos, acreditava que em 2006 seria possível derrotar o PT, o que não aconteceu. O UCHO.INFO não hesitou em afirmar que se tratava de delírio político.

Desde então, o PSDB enfrenta um processo de definhamento, agravado pelo fato de o partido não ter competência para ser oposição. Isso ficou claro durante os governos petistas, quando os tucanos ou escolhiam o caminho errado ou chegavam atrasados. Além disso, quem acompanha a política nos bastidores sabe que muitos parlamentares do PSDB subiam à tribuna do Senado e da Câmara dos Deputados para atacar os governos do PT, mas nas coxias faziam acordos com petistas.

 
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Agora, passados tantos anos, João Dória, ao insistir em sua candidatura ao Palácio do Planalto, puxa o cortejo fúnebre do PSDB. A rejeição a Dória é tamanha, que a cúpula tucana optou por tentar convencê-lo a desistir da candidatura. A grande questão é que o ex-governador dificilmente aceitará a ideia de ser declarado derrotado por antecipação. Em suma, a insana queda de braços não deve terminar tão cedo.

A questão que move os caciques do PSDB é a possibilidade de tirar o partido da UTI e dar-lhe uma sobrevida, o que permitiria mais adiante um freio de arrumação como forma de ressurgir das cinzas. Para tanto, João Dória precisa aceitar a proposta da direção nacional da legenda.

Nesta quarta-feira, 18 de maio, a tão esperada “terceira via” deveria anunciar um nome para concorrer à Presidência da República, mas nem mesmo em sonho esse anúncio acontecerá. A senadora Simone Tebet (MS), do MDB, partido com o qual o PSDB alinhavava uma aliança, aceita ser candidata a vice se pesquisa encomendada apontar nessa direção. O problema é que Dória não aceitaria ser candidato a vice se o estudo estatístico mostrar que Tebet deve ser cabeça de chapa.

Nessa interminável e desanimadora disputa há um fato a ser lembrado: há algumas semanas, Dória aceitou um acordo de bastidor em que mais à frente ele próprio anunciaria sua desistência em relação à campanha presidencial. Isso porque na ocasião estava em jogo a candidatura de Rodrigo Garcia, governador de São Paulo que buscará a reeleição. Acontece que nenhum candidato do PSDB nos estados, em especial os que concorrem ao Executivo, querem dividir palanque com João Dória.

O PSDB convocou reunião para terça-feira (17) com o objetivo de decidir a questão envolvendo Dória, que alegou problema de agenda para não participar do encontro. A decisão ficou para a próxima semana, mas não é certo que o bom-senso prevalecerá. Enquanto isso, a sonhada “terceira via” permanecerá em compasso de espera. Ou seja, Dória precisa decidir, em tempo recorde, se terá um lapso de humildade ou mantém o projeto de mandar o PSDB para a sepultura.