(*) Gisele Leite
Há cada vez mais destaque na mídia e na academia, corroborado pela recente eleição do Donald Trump à presidência dos Estados Unidos – e que reflete dinâmicas políticas e sociais que marcam as últimas duas décadas: a ascensão da extrema direita e seus reflexos na ordem internacional.
A ascensão da extrema direita no mundo não seja um tema novo, o que parece surpreender nos últimos anos é a retomada desse fenômeno em um contexto no qual, muitos acreditavam, a democracia liberal seria a chave para a estabilidade e paz mundial.
A crise financeira de 2007-2008 é geralmente apresentada como ponto central para compreender esse fenômeno. O argumento é que a crise levou a uma intensificação de reformas pautadas na austeridade econômica, a fim de “preservar” o neoliberalismo.
A lógica discursiva da direita não foi norteada pela repulsa ao neoliberalismo, mas sim no recurso a pautas de naturezas distintas, em especial identitárias, que, no extremo, colocariam em xeque as próprias bases da democracia.
Os “processos como a globalização, o multiculturalismo, a imigração e a erosão da cultura nacional têm sido os seus principais alvos de ressentimento”. Ao sentir os efeitos da crise, nos Estados Unidos e na Europa essa “raiva” foi direcionada a imigrantes e associada a uma percepção de “superpovoamento” dessas regiões.
A tendência global de propagação da extrema direita, é importante reforçar a heterogeneidade dos movimentos aqui incluídos e pluralidade de agendas, muitas vezes contraditórias, que embasam essas diferentes lideranças.
De um lado, a própria discussão acerca das terminologias para pensar essa onda é crucial. Termos como ultradireita, direita radical, extrema direita e sua relação com o populismo precisam ser explicitados, pois há diferenças significativas no que concerne às posturas desses grupos perante as instituições democráticas.
O tema tem levado a amplas discussões, popularizadas, por exemplo, no best-seller de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt “Como as democracias morrem”, de 2018, em que os autores discutem vários exemplos de como regimes democráticos escorregaram para o autoritarismo.
Eventos recentes, como a invasão no Capitólio nos Estados Unidos em janeiro de 2021 e a invasão da Praça dos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023 no Brasil, mostram como até democracias consolidadas não estão imunes a retrocessos e ameaças sólidas das suas instituições.
Diferentemente do caso europeu, no século XIX se observa uma dissociação entre liberalismo e nacionalismo na América Latina, seguida por uma associação entre nacionalismo e extremismo no século XX.
Uma ciosa análise mostra que o conservadorismo sempre esteve presente na construção do nacionalismo latino-americano, sendo fruto da consolidação do capitalismo agrário-exportador capitaneado pela elite oligárquica. Esse legado histórico pauta a ascensão da extrema-direita no presente, agora reforçada pelo fenômeno das guerras culturais.
Os autores pensam o atual cenário brasileiro a partir de uma recapitulação histórica e sistemática da ultradireita brasileira desde o início do século XX aos dias atuais, incluindo a análise do bolsonarismo e da propagação de grupos neofascistas. Há quem declare abertamente ter “saudades da ditadura militar”.
Salientando a diferença entre direita radical e extrema direita, argumentam que “a transnacionalização da ultradireita brasileira não obedece a um sentido único de apropriação de um centro irradiador, tampouco está encruzilhada em um só fluxo de movimento”.
As direitas autoritárias assumem-se como porta-estandarte de uma “sagrada cruzada econômica” para salvar o mercado e a “liberdade” contra qualquer indício de estatismo ou coletivismo, e como parte de uma regeneração espiritual para restabelecer a própria ordem moral do mundo, começando pelo pater familias na casa, o patrão na empresa, a pele branca na história nacional e Deus no controle das almas.
Ao contrário, demonstram que esse transnacionalismo reflete um processo contínuo de adaptação e propagação ancorado ao respectivo contexto histórico.
Reforça-se, naturalmente, a necessidade de pensar com cautela a expansão da ultradireita no mundo e resistir ao ímpeto de universalizar explicações que não condizem com a realidade e história dos países em desenvolvimento.
(*) Gisele Leite – Mestre e Doutora em Direito, é professora universitária.
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